sábado, 9 de maio de 2009

Memorial

MEMORIAL

Ali, em meio às paredes de taipa da velha casa onde nasci, na Vila Mendes, Distrito de Limoeiro – PE. Foi ali, que eu, Maria José de Barros, filha caçula de uma família numerosa e vivendo na maior pobreza... Foi ali que aconteceu o meu primeiro encontro com a leitura e a escrita.
Eu era bem miúda, não sei precisar a idade. Minha irmã mais experiente, (leia-se: mais velha), Margarida Maria de Barros, leiga, tornou-se professora das crianças da redondeza. Elas iam para a nossa casa, a fim de serem alfabetizadas. “Meu Deus! Quantas crianças passaram por mim...! Fico me perguntando como foi que eu consegui alfabetizá-las, sem conhecimento, sem metodologia...” (Margarida Barros)
E eu, como toda criança que se preza, me colocava de forma intrometida no meio daquelas outras, sentando nas pontas dos bancos de madeira (não havia carteiras). Eu também queria papel e lápis. Minha irmã ralhava comigo. Era uma grande confusão. Mesmo assim, em alguns momentos, ela pegava na minha mão para que eu escrevesse meu nome, fazendo com que a deixasse em paz. Ao final das aulas, eu catava os toquinhos de giz que restavam e, de pontinha de pé, riscava no pequeno quadro negro.
Ah! E tinha uma cartilha grande, com letras enormes. Nunca esqueci as letras D e d e a figura de um dedo indicador; como também o cacho de uvas (algo bem distante da nossa realidade), acompanhado das letras U e u. Lembro também de uns óculos de armações grossas e pretas, acompanhado das letras O e o. Este me era familiar, pois meu pai tinha um. Assim como o urubu e as letras U e u. Como eu gostava de folhear aquela cartilha! Penso que foi o primeiro livro que folheei e me encantou.
Como eu desejava estudar! Vestir farda, ir para a escola... Minha irmã já não tinha mais a escolinha em casa, porque estava estudando Magistério. A família era pobre. Minha mãe, apesar de analfabeta, sempre lutou para que os filhos estudassem. Plantava verduras e flores pra garantir nosso estudo, mas ainda não era suficiente com uma família tão numerosa.
Assim, meu irmão mais velho, Francisco, na época, cabo do Exército, que também valorizava a educação, disse para mamãe me matricular na escola, que ele assumiria minhas despesas com fardamento e material (naquele tempo, o Governo não investia na educação como hoje).
Fui estudar alfabetização na vila, na Escola Mínima Mendes. Minha professora, Dona Gilvete Ferreira, uma negra bonita, jovem, forte, vinda “da rua” (da cidade), era carinhosa demais. Lembro que, para cada letrinha que nos ensinava, contava uma pequena historinha. Nunca esqueço da história de Ada que teve sua bochecha mordida por uma abelha e ficou com o rosto inchado e colocava a mãozinha no rosto e gritava: - A, a, a, ... Lembro que cada letra pertencia a uma família. Ela utilizava o método de alfabetização analítico-sintético. Fui alfabetizada logo no 1º semestre.
Imagino que a vivência de intromissão na escolinha caseira da minha irmã, funcionou para mim como um pré-escolar, por isso, a facilidade com que me alfabetizei.
Não lembro de livros infantis na minha casa, nem na escola, muito menos de uma biblioteca. Mas recordo-me que Dona Gilvete nos contava histórias infantis: Chapeuzinho Vermelho, João e Maria, Branca de Neve... Lembro-me bem destas, e como elas me encantavam, especialmente as duas primeiras.
Desde pequena, eu gostava de poemas. Lembro que nas 3ª e 4ª séries eu achava bonito ver as crianças maiores recitando nas solenidades escolares. Um dia, me atrevi a recitar um poema na Parada Cívica. Olavao Bilac:
“Ama com fé e orgulho, a terra em que nasceste,
Criança, não verás nenhum país como este!.”
Pois na hora, esqueci o texto, o que me entristeceu bastante. Este problema de memória me perturba até hoje.
Concluí o Curso Primário (Fundamental I). Fui estudar na cidade. Escola particular. Meu irmão financiou meus estudos. A melhor escola da região. Colégio Regina Coeli, das irmãs Franciscanas de Maristella. Freiras alemãs na sua grande maioria. Rígidas na disciplina. Deslumbrei-me com a grandiosidade do colégio! E lá, descobri um dos lugares que eu mais gostava: a biblioteca. Enorme! Estantes escuras, estilo colonial, abarrotadas de livros antigos, porém bem cuidados pela Ir. Imma.

Toda semana eu visitava aquele espaço e levava um livro pra ler. Ela me recomendava os cuidados que eu deveria ter com eles e os colocava em umas capas de plástico bem grosso, costuradas à mão, bem artesanais. Como eu achava-as bonitas! Eu devorava aqueles livros.
Bem mais adiante, após um longo distanciamento da educação formal, voltei a visitar a biblioteca do Colégio Regina Coeli. Desta feita, como professora de Redação. É, ali mesmo, naquela escol onde, primeiro me apaixonara pelos livros.
Em casa, comecei a ter acesso a outras leituras. Minhas irmãs mais velhas gostavam muito de revistas em quadrinhos, as famosas fotonovelas. Possuíam caixas cheias. Mamãe não queria ver as meninas menores folheando aquelas revistas, pois elas traziam romances, figuras de beijos na boca. Para ela, aquilo era feio e imoral. No entanto, a nossa curiosidade de adolescentes nos provocava, e líamos às escondidas. Assim como as revistas Pais e Filhos, pois tratavam entre outros assuntos, de sexualidade e reprodução, o que nos atraía muito. Ainda chegava a nossa casa, compradas pelas minhas irmãs mais velhas, uma revista informativa, que trazia notícias do mundo inteiro: a revista O Cruzeiro.
Voltando aos meus tempos de estudante, não lembro que meus professores do Fundamental II e do Ensino Médio, tenham desenvolvido conosco nenhum projeto de incentivo à leitura. Quando comecei a estudar Literatura, acredito que nada foi muito significativo, pois não lembro das obras que li durante o Magistério. Também nesse tempo, não sei por que motivo, havia perdido o hábito da leitura semanal dos livros da biblioteca.
Meu gosto pela leitura voltou quando, após o Magistério, por não ter dinheiro para enfrentar a Universidade, fui cursar Agropecuária na Escola CERu (Centro de Educação Rural Profª Jandira de Andrade Lima). A professora Lourdes Tavares incentivava muito a leitura de obras clássicas da nossa literatura e passou um trabalho sobre o romance O Seminarista, de Bernardo de Guimarães. Deveríamos ler e fazer um resumo. Lembro como foi prazerosa aquela atividade. Como eu bebi daquela literatura. A professora também despertou em mim, o gosto pela escrita. Assim ela me fez amar a Língua Portuguesa, que antes eu não gostava.
Em seguida, fui cursar letras, na FFPNM (Faculdade de Formação de Professores de Nazaré da Mata) Ali, Deparei-me com uma excelente professora de literatura: a professora Tânia. Como ela dominava a literatura brasileira! E ela me apresentou Carlos Drummond de Andrade:
Cidadezinha Qualquer
Casas entre bananeiras
Mulheres entre laranjeiras
Pomar, amor, cantar.
Um homem vai devagar
Um cachorro vai devagar
Um burro vai devagar
Devagar...
As janelas olham
Êta, vida besta, meu Deus!
Nunca saiu da minha cabeça este poema. Penso que me levou de volta à infância, onde tudo acontecia assim, bem devagar. Conheci também na Faculdade, Bandeira, Ferreira Gullar, Cecília Meirelles, os poetas concretistas, os românticos... Descobri assim, os recursos estilísticos, a poesia, e me apaixonei. A partir dali, me atrevi a escrever poemas.
Fui professora de Língua Portuguesa. Sempre me preocupei com o incentivo à leitura, mesmo sem muita experiência, trabalhava a leitura, a compreensão e a produção de textos. Na primeira escola onde lecionei, a Escola Intermediária Henrique Serafim de Morais Costa, em Pitombeira, zona canavieira do nosso município, não havia biblioteca. Nossos alunos, crianças e adolescentes carentes, agricultores e cortadores de cana, não tinham acesso aos livros. Tivemos então a idéia de montar uma biblioteca. Minha colega, Lúcia Cipriano, professora de História e eu fizemos uma campanha entre os nossos amigos da cidade para arrecadar livros e, em um dos nossos recessos de julho, voluntariamente, nos dispusemos e organizamos a biblioteca que recebeu o nome de Biblioteca Graciliano Ramos. Tenho notícias que a mesma ainda existe. Muito me alegra, saber que quem nos sucedeu, percebeu a sua importância.
Infelizmente, a vida dá voltas e muda o nosso rumo. Passei um longo período, afastada da educação, por ter mudado de profissão. No entanto, não parei de escrever meus poemas. E em 1990, lancei meu primeiro livro, numa produção independente: Vida versos Vidas. Fiquei muito feliz. Muita gente leu, vendi muitos exemplares. Durante esse tempo, fiz contatos com outros escritores, engajei-me no movimento cultural da cidade, li muita poesia. Meus poemas foram apresentados em recitais, saraus, no teatro, lidos e trabalhados pelos professores nas escolas do nosso município. Organizamos um evento em homenagem ao nosso poeta maior Austro Costa, limoeirense, por ocasião dos quarenta anos de sua morte: “40 anos com (sem) Austro Costa”. Foi um resgate e uma divulgação de sua poesia.
Em 1994, lancei o meu 2º livro também de poemas: Busca, o qual também foi e ainda hoje o é vendido, lido e trabalhado nas escolas. Fiz várias palestras, rodas de conversa a convite das escolas.
Após esse período, distante, voltei para a educação. E ali, no Colégio Regina Coeli, enquanto professora de Redação e Língua Portuguesa, continuei incentivando em meus alunos o gosto pela leitura. Desenvolvi então, o Projeto “A Caixa Mágica de Leitura e a Centopeia Leitora”, com alunos da 7ª série. Foi um projeto muito proveitoso, pois despertou nos alunos o prazer pela leitura. Depois, já lecionando na Escola Estadual Pe. Nicolau Pimentel, coloquei em prática, um outro trabalho de leitura e produção textual, agora com alunos da 6ª série. E mais uma vez, a poesia invadiu a minha vida com o Projeto “Deixa o verso me levar... verso leva eu...” O resultado foi surpreendente. Ao final do trabalho, lançamos um pequeno livro com todas as produções, os poemas dos alunos. O mesmo foi lançado para a comunidade escolar em um bonito sarau.
Simultaneamente a esse trabalho, como integrante da ONG Instituto Flor do Limão – Limoeiro, desenvolvi junto com alunas voluntárias, o Projeto “Amigos da Leitura”, um trabalho de incentivo à leitura, para crianças carentes do Bairro São Sebastião,que durou dois anos, e fui uma das idealizadoras e atualmente coordeno a Biblioteca Flor do Limão, que conta com um acervo considerável, servindo à comunidade do Bairro São Sebastião e vizinhança.
Nesse ínterim, voltei à Faculdade (FAINTIVISA) para fazer a Pós-graduação. Escolhi o curso “Leitura e Produção Textual”. Aí, sim. Apaixonei-me de uma vez por todas pela leitura, pela produção textual e o seu ensino. Encontrei lá, professores excelentes como a Profª Ivanda Martins, a Profª Neuza Mendonça e o coordenador do curso, Profº Ricardo Paes Barreto. Este, um grande incentivador dos novos escritores. Através dele e sob a coordenação e organização da Profª Ivanda, lançamos o livro reunindo os trabalhos de final de curso de nossa turma: “Leitura e Intertextualidade: Múltiplos Olhares”, obra que já se esgotou e que muito tem ajudado os professores em sua prática pedagógica.
Também com o apoio e incentivo do Profº Ricardo, tive a oportunidade de lançar o meu 3º livro, obra escrita por minha família e organizada por mim: “Ah! Se eu soubesse escrever... Minha vida daria um livro.” O mesmo já se encontra na 2ª edição e foi adotado pelo Colégio Regina Coeli e pelo Educandário Beatriz França, ambos de Limoeiro, como para didático nas turmas de 8ª série, no ano de 2008.
Atualmente, encontro-me na coordenação de um livro que será lançado pela Escola Estadual Pe. Nicolau Pimentel, com as produções textuais dos alunos nos últimos 3 anos.
Considero-me privilegiada por todas as oportunidades que a vida me ofereceu. E feliz, por ter conseguido agarrá-las, apesar de todas as dificuldades por que passei. Hoje, sinto-me melhor preparada e mais segura para desenvolver da melhor forma que me é possível, o meu trabalho em sala de aula, e assim, oferecer aos meus alunos oportunidades para amarem a leitura e desenvolverem seu potencial.

Maria José de Barros
Limoeiro, 05 de maio de 2009.